del curador

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Diálogo entre a linha, a forma e a cor através das telas das artistas: Karina Valderrama e Carla Fatio, por Antonio Santoro Jr, curador, museólogo, crítico de arte, profesor y escritor. Sao Paulo, Brasil, fev 2017…

…Toda vez que se visita uma exposição de artes plásticas, principalmente de pinturas é que afloram os elementos visuais perceptíveis a olho nu, que compõe a obra de arte, colocando em destaque a linha, a forma, a cor, o volume, e a textura.
As artistas Karina Valderrama e Carla Fatio foram convidadas a participar de uma exposição de artes plásticas com temas livres, desenvolvidos por cada uma delas.
Para tanto apresentaram trabalhos visuais usando total liberdade de técnica e expressão focadas no uso da linha, forma e cores.
Para melhor desfrutar da apreciação destes trabalhos plásticos, sugerimos aos visitantes desta mostra, que ao se depararem diante de cada proposta visual, procurem observar, olhar e buscar as abstrações que afloram nas inspirações pictóricas de cada artista, com o predomínio da linha, nas obras de Carla e da cor nas obras de Karina.
Chega-se então a uma constatação:
Enquanto Karina acentua a importância das cores focando o espaço colorido, ora de maneira suave, ora de maneira desafiadora permitindo ao espectador se identificar com elas, entre uma variedade de telas em que às vezes deslumbram-se ambientes adversos, com suas tonalidades fortes, logo depois nos dá uma sensação de paz e suavidade em suas telas de coloridos mais claros.
A artista Carla Fatio, em suas telas procura trilhar o caminho das linhas, que embora sem levar a nenhum lugar concreto, permite uma fruição do tema a que artista se propôs, “Os Varais da Amazônia”, quando as cores suaves, com a predominância do azul, convidam o espectador a respirar e a absorver os sentidos e sentimentos da Amazônia distante, através de suas aves e peixes delineados pelas linhas, e complementadas pelas cores tranquilas.

Antonio Santoro Jr.
Curador, Museólogo e Crítico de Arte das Associações: AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte), ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) e APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Professor benemérito da Faculdade de Belas Artes, e crítico homenageado pela ABCA em 2016.

São Paulo, fev/2017.

Sobre as pintura de Karina Valderrama, por Rubens Pontes, artista plástico, profesor y curador Sao Paulo, Brasil 2015. 

A imagem é uma das grandes responsáveis pela formação inteligível do homem desde sua origem e é constitutiva de significativa importância diante de seu código informativo, principalmente, em meio à saturação visual da vida contemporânea.
Seja em seus aspectos de vigilância, espetáculo, prazer, controle ou manipulação dentro da cultura visual, contribui para que os indivíduos fixem representações sobre si mesmo, o mundo e seus modos de pensar e conseqüentemente a mediação no processo de como olhamos para o mundo e para nós mesmos.
Colaborando assim, para a produção novos mundos, para que nós possamos saber muito mais do que temos sido capazes de experimentarmos.

Diante do processo de construção de imaginários, existem imagens que remetem a si mesma, evidenciadas sobre certas posições minimalistas, resumindo-se na célebre frase de Frank Stella “o que você vê é só o que você vê”, um discurso tautológico por excelência, porém, a leitura mais genérica sobre a maioria das imagens é conotativa e na sua elaboração intervêm muitos fatores.
A ideologia, nosso passado, nossas vivências, nossa conformação cultural, nossos desejos e nossas expectativas.

Nesta abordagem se encontra a produção em pintura de Karina Valderrama.
São imagens que carregam contenções e turbulências, acúmulos.
Camadas e camadas.
E diante das camadas e absorção dos “erros”, erros que se tornam acertos. Acasos.
São processos de culturas vividas.
Fazer contínuo, insistente, quase diário.
Estágio evolutivo na busca de uma universalidade.
Tocando o sublime.

A relação de frontalidade da superfície de suas pinturas é carregada de intensidades gestuais e densidades cromáticas e se organizam entre os espaços cuidadosamente pensados do plano da tela, são trabalhos construídos e para serem vistos no nível de vista, do olhar.
Em outros casos nos apresenta algo como uma visão topográfica, como se a pintura fosse vista de cima.
Entre polaridades.

Operando dentro da abstração em tentativas de unificação da superfície da tela em vigor e dinamismos no qual caracterizam a action painting americana, a artista não expande em definitivo seus formatos a grandes dimensões na tentativa de afirmar planaridade de sua pintura, se vincula à relação da figura humana e a tradição interpretativa do conceito de percepção da abstração europeia.
Mantendo o fenômeno da fruição sensível de sua produção e pontuando particularidades do pensamento greemberiano, como uma vontade construtiva e uma organização formal inventada, em que prima à composição e a estrutura.

Referências Bibliográficas
KOBERT KUDIELKA Abstração como antítese – O sentido da contraposição na pintura de Piet Mondrian e Jackson Pollock. Novos estudos. – CEBRAP, Jul 1998, nº.51.

Deixa-me outra vez, por Rubens Pontes Rocha, artista plástico y profesor, Sao Paulo, Brasil 2013. 

Começar, recomeçar e começar de novo, estas ações no processo de construção de um parágrafo que seja ou mesmo um texto, nos faz muitas vezes ou mesmo constantemente refazê-lo. E ao trabalharmos e retrabalharmos, muitas vezes o seu formato se modifica, outras vezes, modifica sua concepção inicial, as palavras tomam corpo e constroem junto a tantas outras o seu próprio sentido, alterando-os na constituição da frase, como também alterando todo seu conteúdo. Possivelmente, algo se espelha com o fazer em pintura de Karina Valderrama, um fazer que deixa rastros em sua superfície, que, mesmo carregada de sentido imagético entre suas escolhas, os tipos de pincéis e suportes, as tintas e suas cores, sua ação acumulativa, retirada matérica e direcionamento gestual, tudo nos induz a leitura de seu vocabulário pictórico e este, em seu processo constitutivo, se altera constantemente. A familiaridade que a artista tem com as palavras, através do seu hábito com a escrita e a sua estreita relação com a pintura, nos conduz a encontramos diante destas relações sua produção artística.

Sua carga imagética e suas escolhas se fazem diante de um universo muito particular, feito de pequenos elementos, de pequenos instantes diante da enormidade do assunto que aborda, é de uma carga existencial intensa, universal.

Marilyn, Alejandrina, Batóm, Comienzo, Café con Leche, Mess, Déjame otra vez, Jurema 534, All About You, Cielito Lindo, Domingo, Cha, Abrazo, Flor, Colibrí buscando agua, Madre Tierra, Bella Luna, Novia, Sin Palabra, Mulher, Mujer Del Pañuelo, Soñando com tus besos, Sueños Mojados, Abrazando Mi Suêno, Mujeres Soñando, Prohibido entrar. Estes são alguns dos títulos de suas pinturas, que ao nomeá-las carregam dentro si uma memória de mundo de influências e misturas culturais.

Natural da cidade de Lima no Perú e vivendo atualmente em São Paulo, Karina Valderrama acaba construindo um portunhol que, como todo, é bastante peculiar. Ao intitular suas pinturas e trazer estas palavras nos depoimentos colhidos com a artista, nos ajuda a iluminar a compreensão de seu trabalho plástico e descreve um pouco de seu processo de trabalho.

Mais, meu motivo ten que ver com os comenzos. Agora e que sei. Ten que ver com o que a gente leva, o que deja, o que esquece, o que acompanha-nos na vida. Empacar e desempacar (fazer e desfazer malas), com o novo, aprendido, descuberto o creado vs o vielhio ( Karina Valderrama ).

Os indícios da condição humana e suas memórias denotam o assunto da artista. O lirismo de um encantamento com o presente, encantamentos atmosféricos do dia-a-dia, o fazer e esta condição processual que se evidência com uma memória histórica de suas lembranças absorvidas em diversos lugares em que viveu ao redor do mundo e uma saudade de suas origens, não se encontram explicitamente ou mesmo simbolicamente em suas composições, mas tudo se resvala nestas e em tantas outras memórias, são como lampejos.

A concepção formal e técnica em suas pinturas são indiciais tal “como uma arranhar luminoso” das fagulhas da memória, que buscam em sua latinidade dramática um equilíbrio entre peso e leveza junto a uma espécie de pureza e certa força, que é característica de grande parte deste continente. A artista se coloca na busca insistente de equilíbrio diante de tantas circunstâncias até explodir numa gestualidade e luminosidade equatorial.

A memória e o presente, suas familiaridades e os elementos em comum que a tornam atemporais constituem seu repertório imagético, um bule e uma xícara, uma cadeira que se encontra única e só na superfície do quadro. Estes elementos aguardam alguma coisa ou algo, mas o quê? São para serem utilizadas? A maneira como a artista constrói a pintura não nos dá escolha, os elementos ficam guardados lá, dentro da pintura, porém, a familiaridade de seu imaginário nos aproxima, mas só por essa familiaridade, com algo que tenhamos visto ou vivido. Folhas, indícios de flor, a silueta de corpos femininos, um flame, uma cena fílmica de amor em que um casal em primeiro plano se beija. Este imaginário é sensível, familiar e bastante afetuoso.

Tal vez tenha que ver com a mihas mudanzas (do país). Llega um momento en que vocé nao se halla más, tempos en que vocé perde-se en medio de tanto cambio, en medio de tanta re-invencao e precisa recuperar a suha identidad desesperadamente. Eu quero dejar a miha huella no mundo, algum rastro de que eu esteve aqui, sou a mesma, mais agora expresándome desde dentro. E como a historia do Hansel e Gretel, eu vou dejando as migas do pao pra reconhecer o camino recorrido, pra encontrarme, pra nao perderme más (Karina Valderrama ).

 Karina Valderrama nos apresenta um parecer em que o grande valor das coisas no mundo ou mesmo de nossa existência talvez esteja nas pequenas coisas, pequenos instantes que nos passam despercebidos, um caminho inverso nesta turbulência em que vivemos atualmente é como algo para saborearmos.

 

 

 

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